segunda-feira, 23 de maio de 2022

Cirurgica Mente.

Mente exposta,

Alma nua,
Neurônios desencapados que valsam
Ao som de um samba.

É tudo tão mais, meu Deus, é o horror que olha o abismo
Acolhedor?

Acalma-te agora,
Senta e respira,
Ultimo ato,
Da peça que peças te prega,

Recolhe,
Pensamentos vadios,
Pega do cesto de costura
A agulha fina,
- quase cirúrgica é –
E com fios de aranha tecidos,
Delicadamente,
- Há que ter zelo agora -
Re- inicia a costura

Diária, dolorida, infinita
De re-começar a emendar
Remendar
Encapar tudo de novo,
Nervo exposto,
Nó na garganta,
Olhar que se espanta,
Olhar que pede
Implora por paz.
Escolha a agulha
É hora de recomeçar
A emendar tudo de novo.

Jeanne Geyer.

domingo, 22 de maio de 2022

Gata de foles.

Gato é que nem saudade: mata a gente, morena. Quando vai pro céu dos felinos.
Minha Pimenta, a veterana, gatinha de mais de 22 anos, adoeceu de um dia para outro. Parou de comer, de passear sobre o teclado do meu computador, de me morder para chamar minha atenção (contrariando Roberto Carlos, ela não pode ficar nua para isso, não usa roupas e, em contrapartida, é peluda pra dedeu). Ficava na cadeira ao meu lado, miando bem fraquinho.
“Coração”, pensei. “A highlander, a felina imortal, finalmente vai embora”. Se o coração dela estava parando, o meu estava partido, amava de verdade aquela gata velha e rabugenta.
Para sorte da Pimenta, uma amiga que entende de gatos passou por aqui, ascultou a velhinha e me disse que não parecia coração pifando e sim líquido no pulmão. Resultado, em vez de um funeral, a idosa recebeu uma estadia no hospital (uma rima e, felizmente, uma solução). Saiu bem caro, mas o importante é que a minha ferinha se recuperou, voltou a comer e, aparentemente, tem lenha para mais alguns anos.
Quando recebi essa boa notícia, convoquei a gataiada e falei:
- Gente, a Pimenta vai voltar. Ela é higlander, imortal. Vamos fazer uma festa pra ela?
- Vamos! – miaram todos. – Uma festa com gata de foles, o instrumento dos highlanders, habitantes das Terras Altas da Escócia.
Meu queixo caiu até o umbigo. Como foi que Prince, Sid, Pantera e Flechinha, analfabetos de pai e mãe, ouviram falar em highlander, em Terras Altas, na Escócia? E em gaita de foles (que eles pronunciavam errado, mas dava pra entender)? Perguntei a eles, e a resposta foi:
- A deusa felina, Bastet, sempre nos leva em sonho até as Terras Altas da Escócia – explicou Prince. – É o país dos gatos, nas Highlands eles falam gatélico...
- Gaélico – corrigi. Fui solenemente ignorado.
- ...gatélico e tocam gata de foles. É claro que tem uma gata, ou um gato, dentro daquela bola que eles apertam, só um de nós miaria tão lindo!
Não ousei explicar que o instrumento era chamado de gaita de foles. Pantera acrescentou:
- Bastet explicou que os sons maravilhosos são iguaizinhos ao de uma briga de gatos, quando disputam uma gatinha no telhado, pra namorar – e olhou-me acusadoramente. – O que nós não podemos fazer, porque os humanos malvados acabaram com nosso parquinho, nossa inocente diversão...
Achei prudente mudar de assunto.
- Vocês vão às Terras Altas em alguma ocasião especial?
- Quando há festivais de gatas de foles, é claro – responderam os quatro.
- Já sei! Vamos receber vovó Pimenta com um concerto highlander! - sugeriu Flechinha, a mais nova da casa.
E foi assim que a fera sênior foi recepcionada, ao entrar em casa: com um pote bem cheio de sua ração úmida predileta e com um barulho ensurdecedor, parecia um confronto entre gaiteiros das Highlands para ver qual era o melhor (sic). Ela pulou no meu colo, assustadíssima; seu coração pulsava forte, parecia que ia pifar de vez. Mas não, pouco a pouco as batidas se acalmaram e ela miou de contentamento.
- Que serenata mais linda, meus netinhos! Por um momento pensei que estava na Escócia, nas Terras Altas, ouvindo gatas de foles!
Quase não acreditei quando vi a highlander, que jamais gostou de felinos, descer do meu colo e esfregar seu corpinho magro no dos companheiros rabudos, em agradecimento. Por fim, ela dirigiu-se a mim:
- E também agradeço ao escravo pela comidinha gostosa. Para um humano, até que ele é legal...
E assim estão as coisas aqui em casa. No mínimo uma vez por semana, os cinco exigem que eu selecione música de gaita de foles no Spotfy ou no Youtube e miam juntos. É horrível, ensurdecedor, o síndico já me ameaçou de expulsão do edifício, mas fazer o quê? Parafraseando o general Eduardo Pazuello, o quixotesco ministro da triste figura, uns, os gatos, mandam, o outro, o escravo humano, obedece.

Carlos Eduardo Matos, Cadu Matos é escritor e tem a página Caducontos do Facebook.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Ser mãe é padecer no paraíso. Não seria o contrário?

A maternidade em uma pintura de Gustav Klimt

Ser mãe é padecer no paraíso” é expressão que já se perpetuou no mundo inteiro. Tenho me perguntado se, em época difícil como a que vivemos hoje, alguém ainda ousaria assinar embaixo como verdade absoluta ou mesmo como uma simples crença. Eu não arriscaria, com certeza.
Não poderia ser o contrário – ser filho é que é padecer no paraíso? Vejamos.
Vem dos textos bíblicos esta visão da maternidade de forma idealizada. A gente acabou convencida da existência de um castelo espetacular onde reside uma fada que é só bem-aventurança. Pode até ser, mas isto é só uma meia-verdade. Durante o tempo de espera, a mulher vai aos poucos criando, no corpo e na mente, o espaço ideal e restrito ao pequeno ser em formação. Ao nascer o bebê, a mãe o recebe de braços e coração abertos e com o filho firmará um elo indissolúvel, ora investida de amor incondicional a guiar-lhe os passos, dia após dia, ano após ano, indefinidamente. Coube a ela a responsabilidade de aninhar o pequeno ser conforme a tradição e os costumes. A sociedade faz exigências, independente de sua pobreza ou riqueza, de sua saúde ou doença, de sua boa ou difícil disposição. Ela é mãe e a sociedade impõe competência, no mais alto grau de idealização. Mas ela também é humana e quase sempre enfrenta contradições, no meio e em si própria. Hoje se encanta com o filho e amanhã se vê desencorajar. A mente, aflita em algumas ocasiões, esperançosas em outras, parece estar anos luz distante daquilo que se pretendeu ideal ou paradisíaco.
Nesta intenção de paraíso, algo mais grosseiramente para o real do que para o ideal, é que o filho constrói o próprio destino. Também o ser criado resultou idealizado e seu destino é viver sob a tutela desta mulher, no paraíso que lhe é destinado. Mas o filho, a princípio indefeso e totalmente dependente dos cuidados e do amor materno, vai aos poucos percebendo a si próprio como indivíduo separado da mãe. Tem início a trajetória de contradições que se perpetuará por um longo período. De repente o lugar paradisíaco sonhado passa a causar estranheza, o pequeno deixa de ser o centro, há uma gama de interesses circulando à volta e que podem ser conflitantes. Esta reviravolta o assusta e o ser gerado no ventre se retrai.
Não mais o centro, o jovem observa de fora, da periferia, e na maioria das vezes, não reconhece amor e dedicação nos gestos e nas palavras daquela que criou o paraíso. Surgem os choques, as ameaças, as perdas, os isolamentos, as pequenas e grandes desatenções. Pior ainda quando surgem violência, abandono e omissão, fatos tristes, mas comuns nos nossos dias. Nem sempre o lar conserva-se o mesmo do início ao fim. Frequentemente ocorrem mudanças, saem pais e entram padrastos e madrastas, jornadas de trabalho caçam mães, e avós assumem o papel, ou creches, ou escolas de forma incompleta e inadequada.
No pretenso paraíso, o filho padece. Amor e culpa, lealdade e rancor, admiração e descrédito, medo e desejo, indiferença e esperança, para muitas, formam o conjunto de sentimentos que se alternam da infância à fase adulta. O paraíso criado parece sofrer o abalo e as mães, antes dedicadas e altruístas, agora vão à desforra e fazem cobranças pelo que consideram ingratidão.
Minha experiência como filha, finda há duas décadas, me leva a acreditar que o ponto de ignição em todo este círculo em movimento contínuo é a expressão da culpa. “Reconheço não ter amado minha mãe como deveria ter amado; busco, na expiação da culpa, ser melhor mãe do que ela foi e, por merecimento, a recompensa de um amor de parte do meu filho maior do que aquele que dediquei à minha mãe.” É um tiro no escuro.
O texto bíblico ensina que Deus criou o paraíso e o entregou a seus filhos. Estes não conseguiram usufruir do paraíso da forma imposta pelo Pai e foram expulsos. Acredito que a expulsão deu-se não porque houvesse a prática do mal de parte dos filhos de Deus (afinal, que mal teria em se comer uma maçã?), mas por desobediência ao Pai. Deus não padece no paraíso. Somos cada um de nós, seus filhos, que padecemos por desobedecê-Lo. As mães tampouco deveriam padecer, não lhes cabe criar nada parecido com o paraíso, já que são humanas e não deusas.
O paraíso – ficou provado no ato do Criador – não é para os humanos, seres por demais imperfeitos.
Que as mães ajam e amem, cientes do seu modesto e nada santo papel; desprovidas de culpa por não poderem oferecer mais do que isso.
Num ambiente fraterno e sem cobranças, nem ela nem o filho padecem.

Jacira Fagundes é escritora e tem o blog Histórias que Pintam. além de colaborar no grupo Boteco das Letras

quinta-feira, 19 de maio de 2022

A COISA MAIS PERIGOSA.


te leio
enquanto escuto cameron de la isla
e não te tenho a ti
como teu espírito que abracei um dia
e era vivo e quente
por tua alma
tão próxima e já distante
deito meu choro
e alguma desassombrada ira
inda que delicadíssima
tua voz é um acorde -
só um.
precipitando-se
naquela ida tão antes
e já tardia
ainda sinto os cheiros
soletrados pelos cantos
sabia
sabíamos
não era cedo, era o fim
e era certo que ainda amávamos
sabia
sabíamos
aquela que era urgência,
era somente a coisa do amor
acabando.

Dione Barreto é escritora e colaboradora no grupo Boteco das Letras

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Avesso.

Imagem Pixabay.
 

Te amo no meu avesso

No direito o amor não vingou

Teu amor era avesso ao que sou.


Restou a linha mal acabada

As tintas borradas na tela

Onde tu à minha revelia pintou

Minha imagem reversa

Que jaz em algum lugar do passado

Esmaecido no tempo...


Sou lembrança tênue, feito a fumaça expirada

Depois da tragada voraz 

Que consome. 


Jeanne Geyer